Gostamos de escrever e de pensar. Costumávamos trocar e-mails, mas decidimos expor nossas ideias a quem quer que queira vê-las, e assim surgiu o Abracabessa. Sem cedilha mesmo, porque tudo pode ser mudado - e mesmo que não seja para melhor, às vezes a mudança traz consequências fantásticas!

26 de jun. de 2010

Sobre a relação Mulher bonita x Marido Rico

Como deixamos claro na página inicial deste blog, a idéia de compartilhar nossos pensamentos aqui surgiu a partir de conversas virtuais, em trocas de e-mails. E foi numa destas recentes trocas, que surgiu mais um assunto que acreditamos ser pertinente compartillhar aqui para possíveis extensões do assunto. Conversávamos sobre o e-mail: " Mulher bonita & Marido rico", que circula pelas contas de @ internet afora:


PROCURA-SE MARIDO RICO
Saiu no Financial Times (maior jornal sobre economia do mundo).

Uma moça escreveu um email para o jornal pedindo dicas sobre "como arrumar um marido rico".

Contudo, mais inacreditável que o "pedido" da moça, foi a disposição de um editor que, muito inspirado, respondeu à mensagem de forma muito bem fundamentada.


E-mail da MOÇA:
"Sou uma garota linda (maravilhosamente linda) de 25 anos. Sou bem articulada e tenho classe. Estou querendo me casar com alguém que ganhe no mínimo meio milhão de dólares por ano. Tem algum homem que ganhe 500 mil ou mais neste jornal, ou alguma mulher casada com alguém que ganhe isso e que

possa me dar algumas dicas?

Já namorei homens que ganham por volta de 200 a 250 mil, mas não consigo passar disso. E 250 mil por ano não vão me fazer morar em Central Park West.

Conheço uma mulher (da minha aula de ioga) que casou com um banqueiro e vive em Tribeca! E ela não é tão bonita quanto eu, nem é inteligente.

Então, o que ela fez que eu não fiz? Qual a estratégia correta? Como eu chego ao nível dela? (Raphaella S.)"
Resposta do editor do jornal:

"Li sua consulta com grande interesse, pensei cuidadosamente no seu caso e fiz uma análise da situação.

Primeiramente, eu ganho mais de 500 mil por ano. Portanto, não estou tomando o seu tempo a toa...

Isto posto, considero os fatos da seguinte forma: Visto da perspectiva de um homem como eu (que tenho os requisitos que você procura), o que você oferece é simplesmente um péssimo negócio.

Eis o porquê: deixando as firulas de lado, o que você sugere é uma negociação simples, proposta clara, sem entrelinhas : Você entra com sua beleza física e eu entro com o dinheiro.

Mas tem um problema. Com toda certeza, com o tempo a sua beleza vai diminuir e um dia acabar, ao

contrário do meu dinheiro que, com o tempo, continuará aumentando. Assim, em termos econômicos, você é um ativo sofrendo depreciação e eu sou um ativo rendendo dividendos. E você não somente sofre depreciação, mas sofre uma depreciação progressiva, ou seja, sempre aumenta!

Explicando, você tem 25 anos hoje e deve continuar linda pelos próximos 5 ou 10 anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. E no futuro, quando você se comparar com uma foto de hoje, verá que virou um caco. Isto é, hoje você está em 'alta', na época ideal de ser vendida, mas não de

ser comprada. Usando o linguajar de Wall Street , quem a tiver hoje deve mantê-la como

'trading position' (posição para comercializar) e não como 'buy and hold' (compre e retenha), que é para o quê você se oferece...

Portanto, ainda em termos comerciais, casar (que é um 'buy and hold') com você não é um bom negócio a médio/longo prazo! Mas alugá-la, sim! Assim, em termos sociais, um negócio razoável a se cogitar é namorar.

Cogitar...Mas, já cogitando, e para certificar-me do quão 'articulada, com classe e maravilhosamente linda' seja você, eu, na condição de provável futuro locatário dessa 'máquina', quero tão somente o que é de praxe: fazer um 'test drive' antes de fechar o negócio...podemos marcar?
(Philip Stephens, associate editor of the Financial Times - USA)
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Sabe aqueles e-mails nos quais a gente não pode confiar mas pode acreditar? É assim: vc não sabe se é real, mas sabe que bem poderia ser...É o caso deste. Por menos que eu queira admitir, desde que participei de movimento feminista - certamente por estar mais atenta ao assunto - tenho observado muitas mulheres com o tipo de ideia da moça abaixo. É grosseiro porque está escrito, mas no dia-a-dia se vê/ouve isso a todo tempo, mas não há crítica, não se reflete sobre o assunto.


Ouço mulheres da MINHA IDADE (não com 15 ou 25) com filhos, mas solteiras, dizendo que queriam um homem que ganhasse R$ "X", mas que não pretendem parar de trabalhar e de ganhar "seu" dinheiro, que será dela e dos filhos. Ou seja, o homem-parceiro-amor-da-minha-vida vai trabalhar para a família e ela vai trabalhar para si e sua prole. Justo? Nem um pouco! E a bendita frase "Só tem mulher quem pode", que é usada pelas mais jovens para explicar porque não saem com quem não tem carro ou não paga a conta ou não oferece presentes caros.

Minha mãe é viúva e teve que trabalhar muito para nos sustentar. Acho que por isso fiquei com a ideia pervertida de que é minha obrigação, por minha condição de "ser social", trabalhar para me manter e me sentir feliz, orgulhosa com isso, ao invés de viver à beira de ser salva da situação.

Acho tão absurdo estarmos em 2010 e ainda existir esse tipo de piada, de mulher, de situação, de indignação...tudo que eu queria era poder dizer à Marina, daqui a alguns anos "Ah, no tempo da minha avó as mulheres dependiam dos homens e se orgulhavam disso...". Marina vai ver que ainda É assim. Está mudando, mas ainda É assim.
Obs.: Minha avó foi casada várias vezes e nunca dependeu de homem nenhum...acho que minha ancestralidade joga a meu favor rs

 Falar disso não é chover no molhado. A indignação não pode NÃO ser expressada, certo? Mesmo que o assunto seja mofado e nos remeta a algum tempo depois da Era do Gelo...

(Patrícia)
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Eu já tinha visto esse email antes, e concordo quando você diz que a gente não pode confiar, mas pode acreditar. Aliás, no meu caso imaginei até a cena: No fim das contas a mulher aceita o convite do cara que respondeu, pq vai querer mostrar pra ele que é um investimento confiável (bonita, magra, etc), pensando que ele possa se convencer e querer algo mais duradouro. Infelizmente é isso ai. Algumas mulheres encaram os atributos físicos que possuem como forma de sedução para conseguir determinadas coisas. E alguns homens, pra ser bem sincera eu acho que a maioria, ve a mulher da mesma forma... De acordo com o peito, a bunda, a barriga e o rosto que elas têm. Ambos querem negociar esse "produto". Pq que propaganda do dia dos namorados so aparece mulher de langerie? Pq é tão mais comum ver mulheres prostitutas? Pq o corpo das mulheres parece ser tratado mesmo como mercadoria. Uma mercadoria que assim como outras do mundo consumista perde a graça com o tempo, e precisa ser trocada. Por isso que o cara fala que ela é uma peça a ser comercializada (como algo em promoção, ponta de estoque), mas não adquirida (vai comprar do estoque, sabendo que tem peça mais nova pra chegar?). Algo mesmo tão retrógrado e tão idiota.


Eu já ouvi milhares de vezes da boca de conhecidas a pérola "só tem homem quem pode", principalmente referindo-se à caprichos (r$) que eles se submetem a fazer para agradá-las. Taí outra frase mais babaca, mais pobre e mais sem classe que eu já ouvi. Seria a mesma coisa que dizer só tem carro quem pode por combustível, só come quem pode comprar comida, só dorme quem tem cama, ou seja = relação propriedade $ x objeto.
O que eu acredito é que toda relação é uma troca de interesses, disso não há do que fugir. Você nasce por que de alguma forma sua mãe queria/procurou ter um bebê. E aí cria um laço com ela pq depende dela pra sobreviver. Cria laços na escola pq precisa viver em comunidade, e tem algum tipo de relação amorosa também por uma troca de interesses. Só que esses interesses variam, muito. No meu caso, acho que procuro (procuro não, que eu nao quero objeto, hehe) um cara que goste dos mesmos estilos de música/literatura/cinema, que goste de conversar, seja mais alto e tão confuso quanto eu, pra entender minhas viagens, etc, será uma troca... De experiências, vivências, cultura... Mas não deixará de ser. No caso do grupo ao qual a mulher retratada pertence, ela oferece prazer sexual pelo prazer material. E não parece pensar numa possível cumplicidade, o importante é poder se mudar pra casa da rua X. Pra mim infelizmente isso ainda é um resquício dos tempos passados, em que a mulher não tinha uma vida profissional, e a vida era casar, ter filho e cuidar da casa. E diante disso, tinha que se preocupar em arrumar um "bom partido" pra sustentar a turma toda, já que ela não podia fazer nada pra contribuir. Mas e agora, mulherada? Que a gente pode votar, trabalhar, estudar, e se aperfeiçoar quantas vezes quiser numa área? Precisamos mesmo nos submeter à coisas tão pequenas, como o desdém de um homem a um corpo de uma mulher que naturalmente vai envelhecer? Ou será que os homens permanecem sempre gatinhos? ¬¬ E ainda ficam pior viu, pq pelo menos eu nunca conhecí uma senhora sequer careca! hahaha. Beijo!

(Stéfany)
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8 de jun. de 2010

GEMAS

Gemas sempre são redondas
Até que tentam voar...

Um espreguiço,
E tornam-se pássaros a gorjear,
Um passo
E uma pessoa passa a passear,
Um ganido
E um cão passa a ladrar

Gemas sempre são redomas
Até que tentam partir, levitar,
Criar asas, mergulhar,
Em si e no azul do pensar
Rodilhas a iluminar
Gemas sempre são luares
Segregando serenar

Seres sempre singulares
Escorrem na escuridão
Espalham-se à multidão,
Nascendo acima dos ares
Enchendo o mar de “brilhares"
E pingos de amanhecer...

Cambaxirras e canários,
Craviolas, campanários,
Acendem o alvorecer
Enchendo o ar de aromas
Gemas sempre são redomas
Até que tentam parir, peneirar,
Criar rumos, caminhar,
Em si e no azul do pensar...




Paulo Caldas – Junho 2010

31 de mai. de 2010

Luzes

Uma mulher acende velas. Naquela janela em frente, bem ali, uma mulher acende velas. Ela fecha a vidraça, a chama sobe alto, depois diminui, então entreabre o postigo e o vento que vem da rua em nada interfere na dança da chama. Deve haver um móvel onde fica o cachepot. Não usa candelabro ou castiçal, nem algo improvisado, mas um cachepot vasado, pois quando a vela está pequena forma-se uma figura parecida com flor ou estrela. É o melhor momento da vela, quando está pequena, porque a chama se agita sem motivo, torna-se inusitada, sai da fleuma de sua única obrigação de iluminar e pende então para qualquer lado, sem motivo nem brisa.


Terá perfume aquela vela? Penso que sejam velas sempre iguais, ao menos no tamanho o são. Se uma for perfumada, todas serão. Se não servirem para perfumar o ambiente, para que acende as velas, essa mulher?

Nunca, até hoje, fui muito além nos pensamentos sobre ela. É já noite quando chego em casa e as rotinas de chegar sempre terminam em meu quarto. Abro então minha janela e já procuro a luz que vem da outra. É tão natural quanto abrir os olhos ao som do despertador e procurar o sol para estar certa de não ser um sonho, para ter a triste certeza de precisar deixar as cobertas e me tirar do melhor do dia. Nunca a vi, nem dela tenho qualquer curiosidade, não quero saber com quem mora ou do que gosta ou mesmo para que acende as velas.

Pergunto isso, de mim para mim, com a mesma intenção de saber se está “Tudo bem?” com o rabugento vendedor de cocada. Se algum dia ele decidir responder irá atrapalhar todo o meu dia. Mesmo assim vou parar para ouvi-lo, e se for algo triste vou me comover e ficar muito penalizada e até vou ajudar, porque as pessoas tristes me dão certo alento, é bom saber que há pessoas com problemas piores que os meus e que eu, não podendo resolver os meus, faço diferença na vida alheia. É por isso que faço caridade. Não sei as outras pessoas, mas eu faço caridade porque não quero passar de todo por incompetente – “Não resolvo os meus porque são problemas terríveis, mas ajudo muita gente!”. Tem funcionado.

Escorrego a cortina e fecho minha janela, mas o tecido fino deixa aquele brilho fraquinho, lá longe, como se a distância fosse de anos e não de alguns passos. Nunca vi homem de coque, mesmo que traga cabelos compridos, por isso sei que é uma mulher. E sei que acende velas.

Meu gato morreu. Comeu algo envenenado, creio. Essa foi a explicação para todas as mortes felinas da minha infância, por isso mantenho a ideia de que gatos não adoecem nem têm morte natural, todos são assassinados, insistentemente, 7 vezes. De onde vem tanto ódio aos gatos? Será inveja de sua ascendência leonina? O meu não merecia inveja de ninguém. Vira-lata, bandoleiro, infiel como ele só, já estava aqui quando vim morar, mas era bem cuidado então suponho que deixou a família e voltou para “sua” casa. Dizem que esses bichos se apegam à moradia e não às pessoas. Agora foi embora de vez – ou não, quem sabe? Sei que não volta mais de madrugada, não grita no telhado nem na minha porta, não sobe na minha cama, não o derrubo mais, nem se lambe, nem me atrapalha o caminhar, nem me olha. Se ninguém me olha, como sei se existo? O gato não me olha, o vendedor de cocadas não me responde, a dona da janela não se importa de ser observada por mim. Eu existo?

Deve ter viajado. Há dois dias as janelas abertas não mostram movimento na casa. Não estou preocupada com ninguém, tanto que olho apenas para ver se alguém acende a vela, alguma vela, ou o resto da que já esteja lá, caso não tenha queimado por completo.

Terminei de arrumar a última caixa. Os móveis foram alugados com o imóvel, ficarão todos, trouxe apenas roupas e enxoval de cozinha. Nunca tirei uma pequenina lasca de parede, nenhuma quina se quebrou em mim, não há crianças para riscar paredes e as visitas, civilizadas, nunca barbarizaram por aqui. Entrego tudo como encontrei. Menos o gato, que não está mais, mas não por culpa minha, foi veneno, mas não eu. As pessoas dirão, amanhã, quando vieram visitar para conhecer ou alugar: “Nossa, parece que ainda mora alguém, tão arrumado está” e nunca entendi essa frase, pois é justamente o oposto, se mora alguém, deve estar sujo, porque a vida marca as coisas. O rosto, o colchão, o chuveiro, a pintura, a fritura, o reboco, o suor, a lâmpada, a sujeira no rejunte, o batom, o lenço, a vela. Se alguém morasse aqui haveria marcas, não há cuidado que apague as marcas de uma vida. Vida discreta que seja, tímida, resumida, sumida, leve, lenta, suave, fugida. Vou deixar as caixas assim mesmo, sem lacrar, não quero ir à venda buscar fita adesiva.

Trancou a porta, passou a chave pela fresta dentro do envelope com um bilhete “Depositei o último mês. O gato foi envenenado, não vai incomodar o próximo inquilino”.

30 de mai. de 2010

Luzes

Uma mulher acende velas. Naquela janela em frente, bem ali, uma mulher acende velas. Ela fecha a vidraça, a chama sobe alto, depois diminui, então entreabre o postigo e o vento que vem da rua em nada interfere na dança da chama. Deve haver um móvel onde fica o cachepot. Não usa candelabro ou castiçal, nem algo improvisado, mas um cachepot vazado, pois quando a vela está pequena forma-se uma figura parecida com flor ou estrela. É o melhor momento da vela, quando está pequena, porque a chama se agita sem motivo, torna-se inusitada, sai da fleuma de sua única obrigação de iluminar e pende então para qualquer lado, sem motivo nem brisa.


Terá perfume aquela vela? Penso que sejam velas sempre iguais, ao menos no tamanho o são. Se uma for perfumada, todas serão. Se não servirem para perfumar o ambiente, para que acende as velas, essa mulher?

Nunca, até hoje, fui muito além nos pensamentos sobre ela. É já noite quando chego em casa e as rotinas de chegar sempre terminam em meu quarto. Abro então minha janela e já procuro a luz que vem da outra. É tão natural quanto abrir os olhos ao som do despertador e procurar o sol para estar certa de não ser um sonho, para ter a triste certeza de precisar deixar as cobertas e me tirar do melhor do dia. Nunca a vi, nem dela tenho qualquer curiosidade, não quero saber com quem mora ou do que gosta ou mesmo para que acende as velas.

Pergunto isso, de mim para mim, com a mesma intenção de saber se está “Tudo bem?” com o rabugento vendedor de cocada. Se algum dia ele decidir responder irá atrapalhar todo o meu dia. Mesmo assim vou parar para ouvi-lo, e se for algo triste vou me comover e ficar muito penalizada e até vou ajudar, porque as pessoas tristes me dão certo alento, é bom saber que há pessoas com problemas piores que os meus e que eu, não podendo resolver os meus, faço alguma diferença na vida alheia. É por isso que faço caridade. Não sei as outras pessoas, mas eu faço caridade porque não quero passar de todo por incompetente – “Não resolvo os meus porque são problemas terríveis, mas ajudo muita gente!”. Tem funcionado.

Escorrego a cortina e fecho minha janela, mas o tecido fino deixa aquele brilho fraquinho, lá longe, como se a distância fosse de anos e não de alguns passos. Nunca vi homem de coque, mesmo que traga cabelos compridos, por isso sei que é uma mulher. E sei que acende velas.

Meu gato morreu. Comeu algo envenenado, creio. Essa foi a explicação para todas as mortes felinas da minha infância, por isso mantenho a ideia de que gatos não adoecem nem têm morte natural, todos são assassinados, insistentemente, 7 vezes. De onde vem tanto ódio aos gatos? Será inveja de sua ascendência leonina? O meu não merecia inveja de ninguém. Vira-lata, bandoleiro, infiel como ele só, já estava aqui quando vim morar, mas era bem cuidado então suponho que deixou a família e voltou para “sua” casa. Dizem que esses bichos se apegam à moradia e não às pessoas. Agora foi embora de vez – ou não, quem sabe? Sei que não volta mais de madrugada, não grita no telhado nem na minha porta, não sobe na minha cama, não o derrubo mais, nem se lambe, nem me atrapalha o caminhar, nem me olha. Se ninguém me olha, como sei se existo? O gato não me olha, o vendedor de cocadas não me responde, a dona da janela não se importa de ser observada por mim. Eu existo?

Deve ter viajado. Há dois dias as janelas abertas não mostram movimento na casa. Não estou preocupada com ninguém, tanto que olho apenas para ver se alguém acende a vela, alguma vela, ou o resto da que já esteja lá, caso não tenha queimado por completo.

Terminei de arrumar a última caixa. Os móveis foram alugados com o imóvel, ficarão todos, trouxe apenas roupas e enxoval de cozinha. Nunca tirei uma pequenina lasca de parede, nenhuma quina se quebrou em mim, não há crianças para riscar paredes e as visitas, civilizadas, nunca barbarizaram por aqui. Entrego tudo como encontrei. Menos o gato, que não está mais, mas não por culpa minha, foi veneno, mas não eu. As pessoas dirão, amanhã, quando vierem visitar para conhecer ou alugar: “Nossa, parece que ainda mora alguém, tão arrumado está” e nunca entendi essa frase, pois é justamente o oposto, se mora alguém, algo está sujo, porque a vida marca as coisas. O rosto, o colchão, o chuveiro, a pintura, a fritura, o reboco, o suor, a lâmpada, a sujeira no rejunte, o batom, o lenço, a vela. Se alguém morasse aqui haveria marcas, não há cuidado que apague as marcas de uma vida. Vida discreta que seja, tímida, resumida, sumida, leve, lenta, suave, fugida. Vou deixar as caixas assim mesmo, sem lacrar, não quero ir à venda buscar fita adesiva.

Trancou a porta, passou a chave pela fresta dentro do envelope com um bilhete “Depositei o último mês. O gato foi envenenado, não vai incomodar o próximo inquilino”.

7 de mai. de 2010

"Chuva de contairnes, entertainers no ar".

Big Brother Brasil. Rebolation. Carnaval. Ressaca do carnaval. Gaiola das Popozudas. Sorria, você está na Record. Plantão de Polícia. Quem deve deixar a casa? Vote agora! A fazenda. O Fuxico. Copa do mundo. Esquadrão da moda. Zorra Total. Casseta e Planeta. Gugu ou Faustão? NxZero. De volta pra minha terra. Swinga, Requebra, Samba Maceió.



Sabe aquela época lá do colégio em que você se sentia sufocado assistindo aula de química e torcia pra tocar logo pro intervalo? Então, parece que agora todos nós podemos pular essa parte chata e ir direto pro pátio, para a hora do recreio!
Não entendeu como? Super simples. Basta ligar a televisão ou outro meio de espaço midiático como a internet, e observar o estilo de conteúdo ao qual estamos constantemente sendo bombardeados.
É o regime novo da atriz que emagreceu 10 kgs em 1 mês, um cantor que está de casinho novo, a filha de um outro artista, que nem é do meio, mas já ganha condição de celebridade, ou mesmo o seu Zé da esquina que foi ferido num episodio violento, e ainda agoniza, enquanto as câmeras se voltam atentas para o seu corpo.
“Por que a noticia é um show”, diz frequentemente um locutor de um programa de rádio AM. E baseados nesse espetáculo é que os meios de expressão da mídia resolvem agir. Programas e noticias que coloquem o expectador á par de seus direitos, sejam eles coletivos ou individuais, são desconsiderados. Porém o BBB, o rebolation e outros tantos dentre os citados acima que nos deixam apenas passivos e nada nos acrescentam, chovem aos montes.
E digo isso por que me recordo da época em que o BBB ia ao ar; numa certa manhã, ligo a TV e me deparo com Ana Maria Braga e mais meia dúzia de famosos discutindo e analisando o perfil de cada participante do reality, e o rumo que este poderia tomar, a medida que os jogadores fossem saindo. Custei a acreditar que em meio á tantas questões mais serias à serem discutidas, um programa dedicasse tanto tempo (e reflexão oO) a algo tão banal. Audiência...
Algumas semanas antes, logo após o carnaval, lá estava o Faustão trazendo o vocalista do Parangolé, para ensinar a dançar o seu “Rebolation”, e ainda foi perguntado a ele de onde surgiu inspiração para compor tal sucesso (parece até ironia, mas não foi!), sim, o cara é compositor, e a inspiração veio quando ele assistia vídeos no youtube. (Posso fazer uma lista de bandas que mereciam muito mais aquele horário para divulgação de seu trabalho).
O que são destinados a nós são informações como esta, de caráter hedonista. No meio dessa produção do entretenimento entram também mortes, violência, drogas e tragédias de todos os tipos, empurradas goela abaixo, em plena hora do almoço, em programas de meio-dia.
Para conseguir uma matéria vale tudo, conversar com o acusado diretamente na cela, filmar corpos recém - assassinados, tentar à todo custo entrevistar a mãe ainda em choque que acaba de perder seu filho...
Após minutos de “tragédia” no ar, surge logo um merchandising, uma partida de futebol, ou o desenho animado, destinados à quebrar essa “tensão” e nos fazer voltar a passividade outra vez.
Me diz se não funciona? Claro que sim, nos acostumamos á ver a brutalidade ao nosso redor e achar que ela é mesmo mais um elemento do nosso cotidiano, por que já foi tão filmado que vira rotina, e se vira rotina, perde todo aquele sentimento que a gente sente quando entra em contato com alguma coisa nas primeiras vezes. Dessa forma, nos acostumamos a ouvir que um amigo foi assaltado e ao invés de questionar o mundo, pedir que ele tome mais cuidado, por que o mundo... ”Ah, o mundo ta assim mesmo...”.
Vira rotina, banalidade, e a gente se acostuma a cruzar os braços e não sair da posição de contemplador. Apenas comprando ingressos, matando a sede, sendo sedados, e quando o espetáculo acaba, (nem dando o trabalho de levantar-se) pegar o controle e mudar de canal.


* Título referente à música Chuva de Contairnes, de Humberto Gessinger.

23 de abr. de 2010

Dias de chuva são chatos. Não, eles não são não... A gente é que faz deles um dia ruim. (Como um dia ensolarado também pode se tornar um.) O que gosto nos dias de chuva é a sensação de poder dormir o quanto quiser, pois o frio e a falta de claridade de um dia nublado dão a sensação de que a hora passa mais devagar. Gosto também de ir dormir ouvindo o barulho da chuva, que tem um cheiro diferente quando se mora num lugar com árvores ao redor, ou ver filme. Só que a chuva não veio trazer essa boa sensação na noite em questão. Além de chover, também faltava luz, e além de faltar luz, faltava sono, logo, sobrava tédio. O conto a seguir vem inspirado numa noite como essa.




Eram desses dias monótonos em que falta luz e você está sozinha, sem nada pra fazer. Disfarçava a solidão no MSN, conversando bobagens com pessoas distantes, e lia frases do seu escritor favorito.
Comeu um pedaço de bolo de chocolate que estava na geladeira e continuou gastando o tempo no computador, com quem espera algo – ou mesmo o sono – para sair dali.
A plaquinha, ou uma das, que ela esperava ver o MSN avisar subindo, não deu sinal a noite inteira, ou pelo menos no tempo em que esteve. Continuou confortavelmente lendo e jogando conversa fora, até que em muito pouco tempo lhe roubaram a diversão. A energia se foi e de repente ela se viu cega e invisível. Só enxergava o silêncio.
E parece que com a escuridão tudo lhe saltava aos olhos; a solidão, o desperdício de tempo e a falta de um bom telefonema numa noite mal aproveitada.
Saiu tateando os móveis até achar a lanterna. Com um pequeno raio de luz, pegou duas velas e acendeu junto de si. Deitou na cama, mesmo sem sono, e olhou para o celular, que não emitiu nenhum ruído diferente. Pensou em ligar para milhares de números, concluiu ser melhor ficar consigo mesma.
Preferiu então um papel e uma caneta, e cheio de riscos, continuou tentando traduzir tudo aquilo que sentia. Sensações da menina solitária, numa noite chuvosa e escura, que daria tudo por uma ligação ou alguém que lhe quisesse contar histórias.
Alguém que naquele momento era impossível de encontrar. Então, naquele instante, ela decidiu ser pra si mesma esse alguém. O adulto que finge de sério, e acaba de escrever, e a criança fantasiosa que dentro de instantes estará lendo essa história.

18 de abr. de 2010

"Quem quer ser um milionário?"



Cá estou eu encantada com o ganhador do Oscar de melhor filme de 2009. Assistimos hoje e só sei que ganhou Oscar porque li a resenha (link abaixo), que inclusive exprime um pouco da minha opinião sobre o filme.
O dono da locadora disse tratar-se uma comédia ótima. Fiquei então pensando "Será que ele classifica de comédia um filme que lhe arranca alguma risada?" Não acho que seja um filme romântico nos moldes americanos genuínos (Cidade dos anjos, A casa do lago, etc.), mas é uma história de amor, sim, bem próxima de Romeu e Julieta. Sóque no filme o casal morre para a vida dura que levaram até ali.
Em vários momentos, o jeito apático do garoto parece indicar que sofre de algum problema psicológico ou mental...mas quem não sofreria, vivendo a miséria que ele viveu? Pois o Romeu indiano, que lembra um pouquinho, lá longe, o Ralph Macchio (Karatê Kid), porém sendo melhor ator.
Pois então, é a dica: romance, fé, amor, redenção, ressurreição...